sexta-feira, 13 de agosto de 2010

PÁGINAS AMARELADAS

Recuso me² enquadrar
e nem me ouse chamar
de "dicionário ambulante"
Apenas trato, de modo especial,
as palavras, todas elas
- o que significa, por vezes,
despertá-las do pesado sono
sob a cova enciclopédica.

Mas não me chame "enciclopédia ambulante"
Longe de mim!
Para tanto, manejo, os deixo tontos,
vocábulos ordinários
postos em campo estrangeiro,
em casa dos outros
e arco o preço
que isto implica a meus ouvidos.

Só não posso passar reto
- e aqui revelo o meu fraco -
duma palavra formosa,deitada
sobre o papel amarelo
(um verdadeiro elefante branco),
que encheria sozinha o verso em cheio,
mas não caberia numa única conversa
E passariam os anos,
e correriam os dias
sem que os sentidos fossem tocados
pela melodia de tal palavra...

a menos que um esteta, em pleno dispudor,
revelasse seu escrito
como hieróglifo perdido
nas areias amareladas do Cairo.



DANILO ZAMAI - 13/08/2010
    

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

SEM CERTEZA

Cabe à certeza ter
uma porta bem fechada por chave
trancada por fora
pertences pra dentro
Caso ninguém não perceba
há um aviso pendurado na porta
guardados no armário
sapatos de passos possíveis

O mundo gira as pás
que geram o vento das mudanças
Com certeza
é nadar contra a corrente giratória
é se agarrar em migratória miragem
é lançar âncora no cansaço
Cheio de incertezas
é o fundo musical que passeia
sobre as cabeças dos homens diários
é o medo de que os prédios erguidos
na solidez movediça do mercado
flutuante desabem.



DANILO ZAMAI - 05/08/2010
     

segunda-feira, 26 de julho de 2010

INVASÃO DE ESPAÇO

Sensibilidade
sensível idade
fronteira sensível
às sutilezas do mundo
do fuso
do sibilo da cidade
da privacidade
da vida privada por grades
do silêncio do muro
e suas reentrâncias
cavidades sensitivas
labirinto de entranhas ruminantes
espiam deidades
sonoras e gráficas
belicosidade muda
na sopa onde as ondas se misturam.



DANILO ZAMAI - 26/07/2010
       

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Eu-nírico #20

LUAS DA TARDE

Eis aí a Lua
às duas da tarde,
branca e discretamente
metade - meia lua
mea culpa é metade
Ignora - como ignora o poeta -
seu lugar no imaginário comum:
condição de espelho ao solitário
pendurada em céu noturno;
a eterna separação do companheiro Sol...
Ao contrário,
eis aí ela, às duas da tarde,
divide espaço com nuvens, pipas
e pássaros carregados pelo vento
O poeta ignora que é dia,
que não se sente infeliz;
condiz apenas o inverno,
que o Sol da tarde insiste em desmanchar...
e a Lua que fez nascer mais cedo.



DANILO ZAMAI - 20/07/2010
  

terça-feira, 20 de julho de 2010

RECIPIENTE

Duas jovens mulheres correm
atrás de um corpo que nunca será ideal
- não para todos
os outros e os olhos,
não para elas
Por outro lado, o corpo,

só deseja dançar líquido
a dança envolvente dos corpos,
provar que é próprio ao amor,
matar a sede ainda que não seja copo.

 


DANILO ZAMAI - 20/07/2010

sábado, 17 de julho de 2010

APARELHO FONADOR

Boca de criança é mais parquinho que qualquer outra coisa
Letras fazem da língua trampolim
e tanto podem sair "pipoca" quanto "pitota";
já a palavra "carrinho"
parece saiu deslizando do escorregador
Palavras brincam no gira-gira, disputam o balanço,
sobem e descem na gangorra;
fica fácil visualizar quando uma bola entra em jogo
se um pivete enche a boca e lhe dispara redondo "bundão".



DANILO ZAMAI - 17/07/2010
  

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Pô: heresia visual #7



            Eu sei que essa fonte não ajuda na leitura e pode dar a impressão de que, na verdade, trate-se (o poema) de um hieróglifo, mas a intenção não é tornar o texto indecifrável. Por isso vou deixar aqui o texto com uma fonte menos incomum:

DESCONSTRUÇÃO

Feito sólida -
mente reta -
ãgulo tonto -
fixo paredes -
entreoutros -
apartamento -
planejado -
almejada -
a solidão -
socioanemia -
parabólica -
piso solto -
descarrilhar -
do trem vertical -