quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

FELIZ ANO NOVO iii

Fogos de artíficio,
para um ano de pólvora,
sobem aos céus iii

O sangue e as culpas,
lavados na passagem do ano,
se guardam no escuro mar pintado de fogo;
transbordam na virada da maré
como oferenda recusada!!!

!!! Os fogos de artifício agora voltam,
e de retorno, atigem casas,
os donos e os donos dos donos das casas
Os que sobram, comemoram o ano
com chuvas de pólvora,
para um ano de artifício iii


DANILO ZAMAI - 31/12/2009

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

MEMÓRIA COLETIVA

Um pedaço de pai, outro de mãe
Pedaços de amigos e outros pedacinhos
Partes alheias por todos os lados
Peças sopradas pelo vento da casualidade em mim
Encontram abrigo.

Da pá do ventilador estilhaçada
A girar vertiginosamente por conta própria
Um fragmento unido pela vontade:
Azulejo partido no mosaico do universo.


DANILO ZAMAI - 09/04/2009

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

TELEJORNAIS

Rodovias afinalam carros,
que afinalam veias,
que afunilam vidas.

Os jornais vacilam os dias,
que viciam espíritos,
vacinados no Vaticano.

Outros protestizam hinos,
profetizam infernos
sem protestar contra o dízimo.

Homens extravisam jornadas
de trabalhos extravisados,
e extravazam em casa.

Mulheres remedicam-se,
com drogas remedicam-se,
cujos filhos drogados.

Os canais canalizam,
políticos politicam,
brasileiros brasiliam
em rodovias afinaladas.

Câmeras flagram,
revólveres abalam
pessoas que amargam seus pequenos.

A expressão mesma,
pois são todos iguais,
chacinas e feriados
quando os corações ancorados.


DANILO ZAMAI - 17/11/2009

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

LIÇÕES INACABADAS

Espelho: retrato em movimento
Difícil: é não ser flor no jardim
Impossível: é fugir de si mesmo
Números são canções
ao ouvido do matemático,
como são refrões
carícias ao surdo
Uma palavra basta à pena.


DANILO ZAMAI - 30/10/2009

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

MATEMÁTICO, PÁSSARO, POETA E ELA

20 .
20 ver
20 .
Bem-te-vi

Bem-te-vi
nas vinte vezes
20
.
100 me ver

100 me ver
nas vinte vezes
Bem-te-vi
100-bem-viver


DANILO ZAMAI - 11/11/2009

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

OlhOs

Os ÓculOs pOr trás dOs OlhOs
sãO lentes prOjetadas prO interiOr,
cOmO OvOs que chOcam aO cOntráriO
encascam, nãO rarO, um halO,
O SOl e um sOl de sOlidãO
Um dOs OlhOs, telescÓpiO,
vOa lOnge, se tOrna Lua da Lua;
um dOs OlhOs, micrOscÓpiO,
viaja dentrO dum cOpO,
faz dO mais ínfimO íntimO
prOpOrçÕes astrOnÔmicas
de um asterÓide que cOlide
cOntra um glÓbulO brancO.

Age assim por ter ossos
do ofício tão próximos
de um coração de mãe.

Sonha a noite com um eremita
feliz por não ter olhos nem chão,
sente a vida escorrer pelos dedos dos pés
nas areias da escuridão.


DANILO ZAMAI - 04/11/2009

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

CIDADE REFLETIDA

A cidade é uma marca conhecida,
com calçadas para o céu...
No meu bairro vejo o Zé,
vejo o Chico e a Marina
Na cidade vejo o Ford,
reconhecido, aperta o passo
o mais que pode;
vejo o Nokia e vejo a Prada
exigentes de atenção
Todos, vizinhos de porta,
e estrangeiros de amizade.

Os prédios são colossos Narcisos,
incansáveis de si mesmos.


DANILO ZAMAI - 22/10/2009

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

LINHA DÁ VIDA

Preciso agradecer ao Caio por ter me ajudado a colocar no papel minhas ideias de poemas visuais, já que ainda não aprendi a utilizar o Corel (na verdade não consegui nem mesmo baixar o programa, exceto versões para teste), e isto ainda pode levar algum tempo. Ele ainda foi além: com seus conhecimentos de design, bolou uma fonte muito boa para o título, que casou muito bem com o tema. Posso dizer que este poema também é dele (e o blog também, afinal ele fez o banner do MULTIFACETADO)! Preciso encontrá-lo para acertar alguns pequenos detalhes sobre a formatação do poema, mas o resultado final é praticamente este que está aqui...

Clique na imagem para ler o texto:



























DANILO ZAMAI - 13/10/2009

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

CORPO DE VIDRO


forjado em laços quentes,
resfriado em água abrupta
A luz atravessa e não repousa
- transparência não traduzida em virtude -;
sua sombra deita as cores da passagem,
trombetas de estiagem,
trote do cavalo morte.

A pele trincada fere as mãos
que oferecem carinho,
e se afasta do caminho,
pelas linhas intrincadas que escolheu
Desgastado e corrompido,
despedaça,
e antecipa seu retorno ao
pó.


DANILO ZAMAI - 30/08/2009

terça-feira, 29 de setembro de 2009

AQUÁDROMO

O tempo estaciona
na manhã estática:
antes que o sonho descortine
imagens com arritmia
no verso da pupila,
um projetista sem pé nem cabeça
pra perceber que ainda tenho
um olho lúcido,
roda o filme.

Que minha futura ex-mulher
pense em mim como um travesseiro
pra mantê-la de pé,
e minha casa seja
da porta pra fora,
com um navio na garagem
e um jardim murado de mares.

Anseio um mundo de ideias atrapalhadas,
onde o mudo fala,
as mulheres comem homens,
ricos doam a última gota de fraternidade...
As flores exalam cantos de pássaros,
as noites chovem raios de sol,
que janelam poemas
tateados à meia luz,
pontuados por pedaços de chocolate devorados...

Não me lembro de algo tão contrário
quanto um sonho acordado
Quadro pintado com tintas vivas,
espremido, transborda
pelas bordas do aquário:
palavras nadam.


DANILO ZAMAI - 23/09/2009

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Leitura, escrita e linguagem

            A realidade que nos rodeia apresenta-se como um texto infinito, e não acho exagero dizer que esta realidade é equivalente a uma grande leitura da qual fazemos parte tanto como emissores quanto receptores.

            Praticamos o ato da leitura durante toda a nossa vida, a cada instante e segundo; me arrisco a dizer que lemos mesmo antes de nos darmos conta de quem somos ou que somos. Na maior parte do tempo não temos controle de nossas leituras: lemos consciente e inconscientemente tudo aquilo que nossos cinco sentidos “passam os olhos”, ainda que estejamos cansados de ler; lemos gestos, lemos toques, lemos o cheiro de comida fresca recém-preparada... E como se o mundo não fosse um texto grande o suficiente, reservamos tempo para lermos as palavras imortalizadas no papel. Eu leio, inclusive, enquanto escrevo este trecho e tenho de revisar o conteúdo (textual) de minha memória.

            Será injusto dizer que a escrita é menos importante neste “mundo-texto”, seja com palavras ou sem o auxílio delas. Escrevemos enquanto contamos histórias aos amigos ou quando alertamos alguém de algum perigo iminente. Cuidado àqueles que pensam em escritores enfurnados em torres de marfim ou como seres detentores de um conhecimento especial, pois organizamos e escrevemos histórias de nossa própria autoria numa simples conversa, numa piada ou conto qualquer, só não nos damos ao trabalho de imortalizá-las. Alguns de nossos textos são mesmo impossíveis de serem imortalizados em folhas de papel, como quando mandamos aquele beijo sem dizer palavra, por causa do barulho da rua ou de sua distância, que a nós separa; como quando tocamos levemente o braço de alguém desejado, alguém que nos foi proibido falar; ou ainda aquela piscada sacana no silêncio de um salão. Essas histórias são tão belas quanto qualquer livro, porque são contadas no calor da espontaneidade, e não são palavras esfriadas pelo tempo.

            No entanto, é notável a beleza e a riqueza de nossa Língua Portuguesa – portuguesa só no nome, mas que abarca sutilezas de várias nações. Mas, mesmo assim, ela é limitada, e para isso fazemos uso, muitas vezes, da linguagem não-verbal, que é canal universal quando o assunto é comunicar-se; é a ela que recorremos quando as palavras não são suficientes, e não há nada melhor para começar um texto como um aperto de mão.

domingo, 30 de agosto de 2009

ENTRE CACOS, AOS CACOS

Com os pés descalços,
o gosto do chão frio
é interrompido pela farpa aguda;
rompida a pele, faz morada na carne;
alojada no cerne, faz morada na alma
O caminho é pontilhado de lascas,
a carne é fraca,
e a dor recente é a pior;
mas é vão evitá-las,
pois mesmo dor, são pedras que encaixam
no corpo frágil qual vidro,
e o rosto liso
não conta história como os trincos
- trincos que são brincos da alma.


DANILO ZAMAI - 18/08/2009

Primeiro poema finalizado da série "Casa dos Espelhos".

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Os fins e os meios

Agora que voltei a frenquentar a escola por conta dos estágios da faculdade, o assunto da vez é a H1N1, mas popularmente chamada de gripe suína. Ao invés de ficar alarmado com o quadro, jovem pós-moderno que sou, preferi procurar oportunidades financeiras com o surgimento da nova doença, e não há mercado mais lucrativo que o mercado bélico.

Como muitos sabem, é uma prática comum insurgentes de facções islâmicas se utilizarem de homens-bombas para atacarem alvos como embaixadas americanas, aglomerações de judeus, etc. Mas é sempre uma dor quando a família desses soldados os veem deixarem suas casas com o uniforme de trabalho, pois o retorno é impraticável; sem contar que a perda de um soldado é sempre ruim para qualquer exército.

Pensando nisso, resolvi declarar que a prática suicida ficou obsoleta; sai de cena o homem-bomba ultrapassado, entra em cena o homem-bomba-biológica! Um soldado portator do vírus H1N1, sozinho, que pode atingir muito mais alvos e passar despercebido por tropas inimigas; ele se beneficia da infraestrutura destruída de países do Oriente Médio; conta com o elemento surpreza: pois a última coisa que um judeu vai pensar na sua vida é chegar perto de um porco (os judeus encaram o porco como um animal impuro), assim o muçulmano pode infiltrar-se no meio da população judia e disseminar a doença.

Como vocês podem perceber, os tempos são de crise apenas para aqueles que não enxergam as vantagens, para quem não explora as oportunidades. Sugiro ao presidente Lula, líder de um país emergente e que espera prosperar dentro do cenário mundial, não deixar de aproveitar esta chance de entrar para a indústria bélica. Os protótipos poderão ser facilmente encontrados em salas de aula abafadas, com mais de quarenta alunos cada, das escolas brasileiras - o que também ajuda a diminuir os gastos com educação, que é um peso ao país.



A foto de ilustração é de outro blog - acho que dá pra perceber:



terça-feira, 18 de agosto de 2009

VAGANTE

Quem está batendo aí,
quem é?
"Estou de passagem,
não se importe"
Já me importei...
"Só estou a bater em janelas,
mas nunca parar"
E faz assim pra brincar?
"Sim, pra instigar"
Fica! lhe dou um nome,
um rosto,
lhe dou um corpo
"Então eu perco a graça"
Mas também pode não se achar
"Não ache,
sempre há com quem me limar".

DANILO ZAMAI - 16/10/2008

quarta-feira, 22 de julho de 2009

VICE-VERSA

A raça humana tenta
(E na verdade não tenta?),
Intentar a verdade
Outro caminho seria
Unicamente buscar
A mentira:
Extraindo-a de cada célula
Inserida em nosso todo,
Oculta em cada fresta,
Ungida em nosso sangue
A quantidade obtida
Escapa ao corpo
Infinitamente;
O sobrante,
Um pedaço de nós:
A verdade...
E ainda isto é incerto:


DANILO ZAMAI - 04/09/2008

segunda-feira, 13 de julho de 2009

DIA IMPOSSÍVEL

O dia, deitado, talvez tarde
A lua, duvidosa, deixa-se ficar...
pra ver você chegar.

Você desregulou
o relógio biológico do tempo;
e num momento
nascerão manhã, tarde e noite;
e nesse instante
o mundo apressado vai parar...
pra ver você chegar.

Será um afã: a tarde madrugará,
o dia adiantado,
a noite se deixa estar...
pra ver você chegar.

E o céu, recortado,
rasgado em três:
o sol a pino,
ao meio, o dia,
à esquerda, a lua -
miram na imagem sua,
ao ver você chegar.

O amor entre astros
será um instante esquecido,
e, lado a lado, olham pra gente,
mas é você quem querem fitar.


DANILO ZAMAI - 07/07/2009




















Perdoem o amadorismo total, mas estava inspirado a ilustrar o poema.

***

segunda-feira, 6 de julho de 2009

terça-feira, 30 de junho de 2009

Falar ou ladrar

Há quase um mês, vi pela televisão a notícia de uma menina russa que fora criada pelo pai e pela avó como um bicho de estimação. Após a denúncia da mãe, que dizia que sua filha havia sido sequestrada pelo pai da criança, policiais fizeram busca pela casa da avó, onde encontraram a menina vivendo em um quarto junto dos animais da casa. Segundo os policiais russos, a jovem era mantida trancada, e, quando a soltaram, ela pulava em suas pernas e latia.

O caso da jovem de cinco anos me fez pensar sobre o poder do convívio familiar em nossa percepção de mundo, convívio que, se não nos moldam, influenciam demasiadamente em nossa formação como indivíduos. É óbvio que a jovem russa, cujo nome eu não consegui encontrar em lugar nenhum, é uma exceção: ela foi condicionada desde muito cedo a acreditar que fazia parte da espécie canina, e não duvido que os cães deram-lhe mais carinho que a própria família. Me refiro à herança negativa deixada por pais a seus filhos, os quais, por sua vez, poderão descarregá-la na futura geração. Uma família cristã, por exemplo, ao ouvir falar que um muçulmano é casado com mais de uma mulher, irá dizer ao filho “que absurdo!”; esta pessoa – novamente -, por condicionamento, realmente acreditará que a poligamia é um pecado, se apenas observar pelo lado “ocidental” da coisa, e talvez nunca se imagine na possibilidade de ter nascido no oriente, curvando-se por Alá todos os dias, em direção à Meca. Este exemplo, particularmente religioso, pode ser estendido à diferença da cor, classe, profissão; e até mesmo a coisas aparentemente simples como o time de futebol a que torce. Temos aí a raiz do preconceito.

O ambiente familiar tem – e com muita eficiência – a capacidade de definir a mentalidade de uma pessoa, mas, como toda instituição, a família não é infalível. Por outro lado – ainda bem que há outro lado! –, temos condição e obrigação de refletirmos as (in)verdades que nos foram ditas quando tivermos condição para fazê-lo, ainda que a fonte dessas (in)verdades seja um reduto tão importante quanto a família. O que não se pode fazer é aceitar o que lhe é dito sem mesmo filtrá-lo, e latir asneiras por aí. E isso vale para o mundo de informações que nos perpassa durante toda a vida; porque, diferente da garotinha russa, precisamos notar a diferença entre falar e ladrar.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

POEZINE

Como havia dito na última postagem, vou disponibilizar algumas páginas do Poezine aqui no blog para as pessoas que não tiveram a oportunidade de comparacer ao Elemento Sarau, no último dia 30. Digo que vou disponibilizar somente "algumas páginas", não como estratégia para aguçar a curiosidade daqueles que acessam o MULTIFACETADO - isto seria muita pretensão -, mas porque estou com uma tremenda preguiça de fazê-lo. Também tem o fato de eu ser um iniciante em edição de imagem, quando começo a alterá-las, fico curioso e começo a fuçar em todos os botõesinhos que vejo... e isso leva um bocado de tempo. Resumindo: outro dia termino de editar as imagens.

A impressão do Poezine apenas pode ser possível graças ao meu amigo Tony, cujo apartamento transformou-se, por uma noite, num tipo de tipografia clandestina. Foram horas bem caóticas... Alguns dias antes, o Tony cogitou a ideia de usarmos papel de aspecto envelhecido. Particularmente, por motivos estéticos e éticos, eu preferiria que a impressão fosse feita em papel reciclado. Nem uma nem outra, não tínhamos grana para nos darmos ao luxo da escolha deste ou daquele tipo de folha. Por isso decidi que, pelo menos no blog, as páginas tivessem a aparência da ideia original.

Outra mudança que fiz nas imagens foi o aumento da fonte dos poemas, pois percebi que se o mantivesse como estava, não seria possível a leitura, já que o blogger reduz automaticamente o tamanho das imagens.

Desculpem o amadorismo no tratamento das imagens - apesar de achar isto muito charmoso -, e espero que vocês curtam.










domingo, 31 de maio de 2009

QUATRO IDADES

Puxa: parto
Pisca, papa
Pisca, "gagá"
Pisca, "papá"
Pisca, "mamá"
Pisca-pisca.

Pisca-alerta
Pisca, "bla-blá"
Pisca, papa
Pisca, "mãe"
Pisca, "pai"
Pisca, casa
Pisca, parte.

Pisca, a casa
Pisca, as contas
Pisca, o filho
Pisca, "papá"
Pisca, "mamá"
Pisca-pisca
Pisca, o velho.

Pisca, avô
Pisca, bengala
Pisca, papa
Pisca, trata
Pisca, é gagá
Pisca, é mala
"Puxa! parto."


DANILO ZAMAI - 01/10/2008



sábado, 23 de maio de 2009

TERRA DE NINGUÉM

Vir a saber
deve não ser
deve não ser assim tão mágico
a ponto de estar sóbrio.

Vir a saber
deve não ser
deve não ser assim tão súbito
como o que não se nota.

Vir a saber
pode não ser
pode não ser assim agudo
a ponto de sangrar.

Vir a saber
pode não ser
pode não ser assim tão trágico
a ponto de ser fim.

Semente de dor que não desabrochou
na terra de ninguém
Não sendo aparente, dá nó na calma
E então rói, e é tão só, e é tão dó
como um deus menor.

DANILO ZAMAI – 24/04/2009